1 de março de 2021

A Cultura do Cancelamento e seus reflexos jurídicos

Por Bruno de Lima Acioli e Erick Lucena de Campos Peixoto

A cultura do cancelamento é um fenômeno social recente que surgiu nas redes sociais como o Twitter, mantendo-se inicialmente dentro do âmbito das redes, mas eventualmente causando efeitos concretos “fora” do mundo virtual e, atualmente, tornando-se expressão de conhecimento mais geral no debate público em razão de polêmicas recentes envolvendo participantes da edição de 2021 do reality show Big Brother Brasil.

A Cultura do Cancelamento e o Politicamente Correto

  A “cultura do cancelamento” é um fenômeno moralista e punitivista difundido nas redes sociais contra pessoas, públicas ou não, que cometeram atos considerados moralmente reprováveis pelos demais usuários ou membros da comunidade. Porém, embora associado às redes sociais, o “cancelamento” também atinge pessoas fora do âmbito da internet.

            O fenômeno cultural do “cancelamento” tem ligação íntima com outro fenômeno cultural (e político) surgido muitas décadas antes, no âmbito das universidades americanas, entre professores e estudantes de humanidades, e posteriormente difundido entre parte significativa da opinião pública ao longo do Ocidente: o “politicamente correto”.  

No que diz respeito ao conceito do termo, o cientista político Francis Fukuyama explica que, em sentido amplo, o politicamente correto “[…] se refere a coisas que você não pode dizer em público sem o temor de sofrer um vexame ou desaprovação moral”.[1]

Sobre o politicamente correto, pode-se dizer que o identitarismo presente nos movimentos contemporâneos da esquerda política torna difícil de acompanhar as mudanças nos padrões morais de discurso, sobretudo entre grupos minoritários, os quais são os alvos de proteção do discurso politicamente correto, posto que, para eles, há uma visão de que a civilização ocidental é “[…] inerentemente injusta com as minorias, mulheres e homossexuais”.[2]

A criação de linguagem e identidades próprias de grupo são fenômenos antropológicos comuns da cultura das minorias urbanas, mas suas interações com grupos diferentes, em razão das diferenças no uso da linguagem, podem apresentar dificuldades de uma boa interlocução, conforme exemplo que será dado a seguir.  

Acerca da linguagem, como explica Fukuyama, o “[…] uso do pronome Ele ou Ela no contexto errado denota insensibilidade com o intersexual ou pessoas transgênero”[3], ainda que, muitas vezes, o uso de terminologias consideradas “politicamente incorretas” ocorram não pelo desejo do interlocutor de causar dano à sensibilidade daquela pessoa ou da minoria a qual ela pertence, mas por falta de familiaridade do interlocutor com questões identitárias que fogem à sua própria realidade.

Na intenção de adotar uma linguagem neutra que parecesse mais inclusiva aos grupos LGBTTQIA+ e não reforçasse posições ou papeis de gênero ou de sexualidade, muitos universitários, professores e defensores do identitarismo passaram a utilizar expressões como, por exemplo, “todes”, “elx” e “amig@s”, ou invés de usar letras que designem alguém ou um grupo como (predominantemente) masculino ou feminino. O problema é que, a despeito da justificativa igualitária da linguagem neutra, estas expressões elencadas acima, por exemplo, não são reconhecidas por softwares de leitura desenvolvidos para que pessoas com deficiência visual possam navegar na internet[4]. Ironicamente, a linguagem criada para ser inclusiva para determinadas minorias acaba por ser excludente para outra minoria.

No que diz respeito mais estritamente à “cultura do cancelamento”, uma lista variada de personalidades brasileiras famosas que foram “canceladas” por fãs ou seguidores nas redes sociais incluem nomes como a cantora Anitta[5], o humorista e ator Paulo Gustavo[6], assim como os apresentadores de televisão Britto Júnior e Silvio Santos[7], a maioria deles por algum ato classificado como machista, homofóbico, ou por pura insensibilidade com certas minorias. Até onde se tem conhecimento, nenhuma das personalidades apontadas acima sofreu grande prejuízo social ou financeiro em razão das reações de “cancelamento”, apesar de terem se tornado persona non grata para alguns, por algum certo tempo.

A Cultura do Cancelamento e seus Reflexos Jurídicos

Em razão da banalidade com o qual o termo “cancelamento” tem sido usado nas redes sociais, há quem ignore os efeitos que a cultura do cancelamento possa provocar na carreira de certas pessoas.

Fato recente, contudo, pode ilustrar o prejuízo moral e financeiro que o ato de “cancelamento” pode provocar a uma pessoa: durante o período de quarentena em razão da pandemia mundial do COVID-19, a digital influencer Gabriela Pugliesi, com outrora milhões de seguidores no Instagram, foi a uma festa – ou seja, local de aglomeração – e, em virtude disso, foi durante criticada por seus seguidores, perdeu contratos de publicidade e acabou por excluir suas contas nas redes sociais, tendo prejuízo em dinheiro estimado em três milhões.[8]

Claro, não adentrando ao mérito dos erros cometidos ou não pelas personalidades referidas acima, a cultura do cancelamento pode se mostrar danosa aos famosos e reverter em substantivas perdas de suas receitas. No entanto, muito pior, o cancelamento pode ser devastador na vida de pessoas menos famosas e, especialmente, pessoas mais “comuns” da sociedade, como provavelmente é o caso de quem lê o presente artigo.

A cultura do cancelamento, embora tenha se estabelecido no âmbito virtual das redes sociais e seja exercitada dentro de nichos de interesse, tem gerado efeitos concretos na vida pessoal e profissional de pessoas no mundo real, como relata artigo do jornalista do The New York Times, John McDermoth[9]: pessoas “canceladas” perderam não só seus empregos, como também amizades, encontrando resistência e dificuldade para expressarem suas ideias em espaços públicos.

            Os danos à personalidade de pessoas canceladas é um problema evidente. De fato, o ex-presidente dos EUA e ícone da nova esquerda Barack Obama fez recentemente um pronunciamento crítico à cultura do cancelamento, destacando que não se tratava de uma forma ativismo, e que este comportamento não estava trazendo mudanças ao mundo, mas servindo apenas como uma forma de auto-satisfação pessoal daquele que se coloca na posição de julgador, em suas palavras:

[…] se eu tweeto ou faço uma hashtag sobre como você não agiu da forma correta, ou que você usou o vocábulo errado, então eu posso me sentar, relaxar e me sentir muito bem comigo mesmo pois: ‘cara, você viu o quão consciente[10] eu fui? Eu te cancelei’.[11]

            O próprio articulista John McDermoth, o qual foi citado mais acima, percebeu que as pessoas que foram canceladas pela nova esquerda e, em razão disso, perderam seus públicos originais ou antigas amizades, agora adentraram outros novos círculos de amizades, em geral formado por pessoas da direita, que em geral estão menos preocupados com policiamento de linguagem e questões de politicamente correto.[12]

            Não obstante, embora o politicamente correto seja identificado como um fenômeno da nova esquerda, importante salientar que alguns analistas políticos perceberam que há, igualmente, um fenômeno nascente de politicamente correto na nova direita, o qual o analista de políticas migratórias Alex Nowrasteh[13] nomeou de “patrioticamente correto”, e que tem sido usado por grupos da direita para segregar desafetos dentro da própria direita.

            Obviamente, tal segregação entre pessoas de direita também causa efeitos semelhantes ao do “cancelamento” entre os progressistas: perda de espaço no debate público para exercício do direito de livre opinião, assim como danos aos direitos de personalidade e, inclusive, demissões.

 

Considerações Finais

A privacidade mudou significativamente no século XXI. Há quem decrete, inclusive, a morte da privacidade nesta era digital, o que é um exagero.

Por mais que as redes sociais tenham incentivado as pessoas, públicas ou comuns, a se exporem muito mais do que fariam na era das tecnologias analógicas, toda pessoa ainda guarda para si algo que ela não deseja compartilhar com todo mundo.

O próprio ato de se expor e, acima de tudo, a forma como alguém se expõe publicamente é, também, uma das dimensões da privacidade.

A questão delicada acerca da privacidade atualmente é que, mais e mais, em função de aspectos da cultura das redes sociais que impõem uma repressão à linguagem e ao comportamento, as pessoas estão mais sujeitas a sofrerem danos aos seus direitos de personalidade.

Aliás, a consequência parece até lógica: quanto mais alguém se expõe, mais sujeita estará de ser alvo de críticas e perseguições. O ponto central é que a sensibilidade das pessoas em termos de política e cultura parece estar mais aguçada do que em qualquer outro momento recente, e isso inevitavelmente leva a um grau considerável de desagregação social, levando-nos a ressaltar a necessidade da tolerância entre as pessoas, para uma convivência mais harmônica em sociedade.

A cultura do cancelamento é insustentável, e precisa ser abandonada para que seja garantida a manutenção de uma sociedade livre e aberta ao debate e às diferenças.

REFERÊNCIAS

FUKUYAMA, Francis. Identity: The Demand of Dignity and the Politics of Resentment. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2018.

Notícias e artigos de opinião

ANITTA ‘cancelada’ evidencia o risco de abraçar causas. Revista Veja, 24 jan. 2019.

Disponível em:

<https://veja.abril.com.br/entretenimento/anitta-cancelada-evidencia-o-risco-de-abracar-causas/>. Acesso em: 04 mai. 2020.

BERNSTEIN, Richard. The Rising Hegemony of the Politically Correct. The New York Times, Nova York, section 4, p. 1, 28 de outubro de 1990.

DE NEGO DO BOREL a Silvio Santos, veja quem foi ‘cancelado’ em 2019. Uol Tab, 26 dez. 2019. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/12/26/de-drake-a-silvio-santos-veja-quem-foi-cancelado-em-2019.htm>. Acesso em: 04 mai. 2020.

ESCREVER ‘todxs’ ou ‘amig@s’ atrapalha softwares de leitura, dizem cegos. G1. Rio de Janeiro, 08 jul. 2016. Disponível em: <https://g1.globo.com/educacao/noticia/escrever-todxs-ou-amigs-prejudica-softwares-de-leitura-dizem-cegos.ghtml>. Acesso em: 01 mai. 2020.

FESTA na quarentena pode gerar prejuízo de R$ 3 milhões para Gabriela Pugliese. Istoé

Gente, 02 mai. 2020. Disponível em: <https://istoe.com.br/festa-na-quarenta-pode-gerar-prejuizo-de-r-3-milhoes-para-gabriela-pugliesi/>. Acesso em: 04 mai. 2020.

MCDERMOTT, John. Those People we Tried to Cancel? They’re All Hanging Out Together. The New York Times, 02 nov. 2019. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2019/11/02/style/what-is-cancel-culture.html>.  Acesso em: 08 fev. 2020.

NOWRASTEH, Alex. The Right has its own version of political correctness. It’s just as

stifling. The Washington Post, 07 dez. 2016. Disponível em:

<https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2016/12/07/the-right-has-its-own-version-of-political-correctness-its-just-as-stifling/>. Acesso em: 01 mai. 2020.

OBAMA laid into young people being ‘politically woke’ and ‘as judgmental as possible’ in a speech about call-out culture. Business Insider, Nova York, 30 out. 2019. Disponível em:     <https://www.businessinsider.com/barack-obama-slams-call-out-culture-young-not-activism-2019-10>. Acesso em: 10 mai. 2020.

POSSE presidencial: Bolsonaro: “O Brasil começa a se libertar do socialismo, e do

politicamente correto”. El País. Brasília, 02 de janeiro de 2019. Disponível em:

<https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/01/politica/1546380630_050685.html> Acesso em: 01 mai. de 2020.

WEB detona Paulo Gustavo por censurar beijo gay em Minha Mãe é uma Peça.

Redação UOL, 12 set. 2019. Disponível em:

<https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/12/web-detona-paulo

gustavo-por-vetar-beijo-gay-em-minha-mae-e-uma-peca.htm>. Acesso em: 05 mai.

2020.

[1]     No original: “Political correctness refers to things you can’t say in public without fearing withering moral opprobrium”. FUKUYAMA, Francis. Identity: The Demands for Dignity and the Politics of Ressentment. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2018, edição e-book, n.p.

[2]     BERNSTEIN, Richard. The Rising Hegemony of the Politically Correct. The New York Times, Nova York, section 4, p. 1, 28 de outubro de 1990.

[3]     No original: “[…] the use of he or she in the wrong context denotes insensitivity to intersex or transgender people”. FUKUYAMA, Francis. Identity: The Demands for Dignity and the Politics of Ressentment. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2018.

[4]     ESCREVER ‘todxs’ ou ‘amig@s’ atrapalha softwares de leitura, dizem cegos. G1. Rio de Janeiro, 08 jul. 2016. Disponível em: <https://g1.globo.com/educacao/noticia/escrever-todxs-ou-amigs-prejudica-softwares-de-leitura-dizem-cegos.ghtml>. Acesso em: 01 mai. 2020.

[5]     ANITTA ‘cancelada’ evidencia o risco de abraçar causas. Revista Veja, 24 jan. 2019. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/entretenimento/anitta-cancelada-evidencia-o-risco-de-abracar-causas/>. Acesso em: 04 mai. 2020.

[6]     WEB detona Paulo Gustavo por censurar beijo gay em Minha Mãe é uma Peça. Redação UOL, 12 set. 2019. Disponível em: <https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/12/web-detona-paulo-gustavo-por-vetar-beijo-gay-em-minha-mae-e-uma-peca.htm>. Acesso em: 05 mai. 2020.

[7]     DE NEGO DO BOREL a Silvio Santos, veja quem foi ‘cancelado’ em 2019. Uol Tab, 26 dez. 2019. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/12/26/de-drake-a-silvio-santos-veja-quem-foi-cancelado-em-2019.htm>. Acesso em: 04 mai. 2020.

[8]     FESTA na quarentena pode gerar prejuízo de R$ 3 milhões para Gabriela Pugliese. Istoé Gente, 02 mai. 2020. Disponível em: <https://istoe.com.br/festa-na-quarenta-pode-gerar-prejuizo-de-r-3-milhoes-para-gabriela-pugliesi/>. Acesso em: 04 mai. 2020.

[9]     MCDERMOTT, John. Those People we Tried to Cancel? They’re All Hanging Out Together. The New York Times, 02 nov. 2019. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2019/11/02/style/what-is-cancel-culture.html>. Acesso em: 08 fev. 2020.

[10]   Na gíria jovem americana original, woke (literalmente, ‘desperto’) ou politically woke (‘politicamente desperto’) indicam uma pessoa que se sente na posição de politicamente consciente, achando-se em plena compreensão das dinâmicas políticas do mundo e das percepções políticas de bem e de mal, certo e errado.

[11]   Na declaração original do ex-presidente: “Like if I tweet or hashtag about how you didn’t do something right, or used the wrong verb, then I can sit back and feel pretty good about myself because: ‘Man, did you see how woke I was? I called you out”. OBAMA laid into young people being ‘politically woke’ and ‘as judgmental as possible’ in a speech about call-out culture. Business Insider, Nova York, 30 out. 2019. Disponível em:

     <https://www.businessinsider.com/barack-obama-slams-call-out-culture-young-not-activism-2019-10>. Acesso em: 10 mai. 2020.

[12]   MCDERMOTT, John. Those People we Tried to Cancel? They’re All Hanging Out Together. The New York Times, 02 nov. 2019. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2019/11/02/style/what-is-cancel-culture.html>. Acesso em: 08 fev. 2020.

[13]   NOWRASTEH, Alex. The Right has its own version of political correctness. It’s just as stifling. The Washington Post, 07 dez. 2016. Disponível em:

    <https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2016/12/07/the-right-has-its-own-version-of-political-correctness-its-just-as-stifling/>. Acesso em: 01 mai. 2020.

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